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menina gauche.blogger.com.br
28.12.09

Organizando mudança para o Blogspot.

Cansei das frescuras do Blogger. Até atualizo o blog, mas, dependendo do horário em que acesso, não consigo vê-lo. Fora que, volta e meia, o template fica todo bagunçado.

Assim que abrir o novo blog, deixo o endereço aqui. Deve levar tempo, já que apanho pra caramba dessas coisas...


publicado por menina gauche às 11:17 PM
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26.12.09

teste

publicado por menina gauche às 7:16 PM
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22.12.09

Onde mora o encantamento

Os escritores modernistas inauguraram uma era de liberdade ao abolirem certas obrigações parnasianas. Imposições como catar rimas preciosas e organizar minucio-samente as sílabas de cada verso criaram muitos poemas tecnicamente perfeitos, mas vazios.

Por outro lado, há quem abuse da liberdade, escreva qualquer coisa de qualquer jeito e diga que é poeta. O fato é que, embora não precise de um molde, a poesia tem parâmetros de qualidade. Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira e outros foram brilhantes com seus versos livres. Eles cumpriram o que T.S. Eliot dizia ser a tarefa do poeta: preservar a língua e aperfeiçoá-la, ao utili-zá-la para exprimir os próprios sentimentos e os das outras pessoas, de tal forma que os leitores, conscientes do que sentem, aprendem algo sobre si.

Creio que seja esta a principal característica da boa poesia. Venha em forma de soneto ou como uma união de versos sem rima e sem métrica, o poema deve fascinar o leitor. Os primeiros poetas modernos conseguiam este efeito através das dissonâncias. No livro Es-trutura da lírica moderna, Hugo Friedrich aponta a “tensão dissonante” como característica essencial das artes modernas. A dissonância é explicada por Friedrich como um misto de fascinação e incompreensibilidade, resultado da obscuridade dos textos. Conclui-se, daí, que os poetas modernos não preten-diam ser claros ou mostrar a realidade de maneira objetiva, mas chegar ao âmago do leitor. O francês Charles Baudelaire já dizia que “existe certa glória em não ser compreendido”.
Deixemos, portanto, a comunicação clara e objetiva aos textos jorna-lísticos – embora nem todos o façam.

Não parece fácil, e não é. Nem todos estão dispostos a acostumar os olhos à novidade da poesia. Talvez seja este um dos maiores dilemas enfrentados pelos poetas, desde o desabrochar da lírica moderna. Não é difícil encontrar um escritor que já tenha ouvido algo como: “você é obscuro, parece escrever só para você”.

O fato é que um meio de criação poderoso como a poesia não precisa ser utilizado para transcrever a realidade. Um poema pode ser uma porta para outro mundo, no qual as sensações dão o tom das experiências e revelam o que não surge à primeira vista. Nesse sentido, a poesia é revelação não do que vemos todos os dias, mas do que se esconde por trás de nossa consciência. Para tanto, é necessário entregar-se ao que o escritor mexicano Octavio Paz chamou de “trato desnudo do poema”: o leitor percebe que o fascínio não está em fatores externos, e sim na própria poesia, no encantamento produzido por cada imagem ou som evocado pelas palavras. Somente assim, a experiência poética se concretiza.

(Publicado no NOVO Jornal, edição de 18/12/09)

publicado por menina gauche às 3:40 PM
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16.12.09

Sobre cordas, bambas e o novo

“Não há um porquê”, responde Phillipe Petit, estrela de “O Equilibrista” (direção de James Marsh e Oscar 2009 de melhor documentário), quando alguém pergunta o que o leva a atravessar grandes distâncias sobre uma corda bamba.

O francês Phillipe Petit ganhava a vida nas ruas, fazendo truques de ilusionismo e de equilibrismo. Ficou famoso em 1971, quando, aos 22 anos de idade, caminhou sobre um cabo esticado entre as duas torres da catedral de Notre Dame, em Paris. Três anos depois, no dia 7 de agosto, burlou a segurança do extinto World Trade Center, em Nova York, para atravessar oito vezes seguidas o espaço entre as torres gêmeas. A performance durou quase uma hora e foi assistida por cerca de cem mil pessoas. O artista foi preso após o ato ilegal, e condenado a uma pena simbólica: fazer um espetáculo infantil, gratuito, em um jardim.

Andar sobre o vão entre as inacabadas torres gêmeas exigiu planejamento, treino do corpo e da mente e equilíbrio entre ambos. Depois, deslizar sobre o cabo. E mais. Phillipe fez graça para o público, sentou sobre a corda, pulou, conversou com as aves. Phillipe era um bamba da corda. Mas ainda um mortal – maluco – sobre um cabo de aço a mais de 400 metros de altura, sem segurança ou rede de proteção. A velha arte do equilibrismo, num trajeto nunca antes percorrido.

Repiso o clichê de propósito. Por quê? Não existe um porquê. Existe vontade.

Mas andar em novas trilhas exige, além da vontade, conhecer o terreno – ou a corda – onde se pisa. Planejar, calcular e seguir. Equilibristas experientes não temem o avanço em meio à lâmina do vento. Dão um passo para trás, oscilam para os lados, mas jamais param no meio da corda. O medo de cair impede o progresso.
No entanto, há que se ter cautela; correr expõe ao risco de tropeçar nos próprios pés, e o público sob a corda pode não amortecer a queda. Sempre há quem se divirta nessas ocasiões. Por isso, é importante manter o foco: levantar a cabeça e olhar para a frente evita a vertigem.

Mas os outros são os outros. Eles apenas podem assistir ao êxito ou à derrocada alheia. Arriscar-se na corda bamba é, primordialmente, desafiar-se, colocar-se à prova. E, mais do que arriscar, descobrir o ponto em que a força motriz transforma-se não em explosão desastrosa, mas na leveza de um Phillipe Petit, caminhando suspenso sobre o vão entre duas torres, cheio de uma vontade que só os malucos, em sua peculiar lucidez, possuem.


publicado por menina gauche às 9:55 PM
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28.11.09

Sinatra sem voz

Todo jornalista, com ou sem formação acadêmica, já mexeu com o tal lead. Essa palavra inglesa define o primeiro parágrafo da reportagem, que, reza a cartilha, deve responder as perguntas: O quê? Onde? Quando? Por quê? Como?

Um adepto fervoroso do lead dificilmente iniciaria um texto com: “Frank Sinatra, segurando um copo de bourbon numa mão e um cigarro na outra, estava em um canto escuro do balcão entre duas loiras atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir alguma palavra dele”. Pois é assim que começa um dos perfis mais aclamados da história do jornalismo.
“Frank Sinatra está resfriado” foi publicado pelo americano Gay Talese em 1965, na revista Esquire, e incorporado mais tarde ao livro Fame and obscurity. Sua mais recente versão no Brasil foi publicada em 2004, com o título Fama e anonimato, pela Companhia das Letras.

Talese foi repórter diário do The New York Times nos anos 1950. Pediu demissão em 1965: queria mais tempo para apurar suas matérias. Passou a trabalhar em revistas e em seus próprios livros. Tornou-se um dos pais do new journalism, modalidade que funde elementos do jornalismo com outros tipicamente fictícios, como a descrição detalhada das cenas e o ponto de vista do personagem.

Essas características estão no perfil de Sinatra, fruto de cinco semanas de observação e nenhuma entrevista com o próprio. O cantor recusou-se a falar com Talese, que decidiu seguir seu perfilado em Los Angeles e conversar com quem estava à sua volta. O resultado são mais de cinquenta páginas magistrais.

Hoje, aos 77 anos, Talese detém um amplo legado, difícil de resumir em poucas linhas. Uma de suas lições é que não se deve ser escravo do lead, sob pena de emburrecer à força da facilidade demasiada. Outra é que é possível escrever um perfil sem entrevistar o perfilado, desde que haja uma acurada observação. Não poder perseguir um assunto durante semanas não é empecilho para deixar de cercar bem os fatos. Pena que a corrida cada vez maior pelo “furo” resulte em textos rasteiros e em jornalistas reféns da internet e de comunicados oficiais.

Talvez, o maior ensinamento seja o de que precisamos colocar gente nos jornais. O jornalismo de Talese tinha uma cara muito humana, fosse empoada como a das celebridades ou suada como a dos trabalhadores braçais. Para isso, é necessário ir às ruas, falar com as pessoas, cercar-se delas. Isso exercita o instinto. E jornalista sem instinto, como diria Talese, é “Picasso sem tinta. Ferrari sem combustível – só que pior”. É como Sinatra sem voz.


publicado por menina gauche às 11:07 AM
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21.9.09

não eram só as asas coladas
ao corpinho frágil
e os olhinhos sem brilho
que me entristeciam
quando eu observava o pássaro
na gaiola pendurada sob a cobertura do terraço

eu chorava também
ao pensar nas flores
que jamais ouviriam aquelas canções.

publicado por menina gauche às 4:16 PM
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12.7.09

talvez o luar seja o mesmo
ainda
embora caia sobre outras pontes
(Londres permanece distante)

as estrelas
parecem cada vez mais raras
ofuscadas
parece tão absurdo contá-las
- as estrelas e as lâmpadas

marés continuam a ir e vir
e cada vez mais distante delas vai
a cidade
una com outras terras potis

percorro-a a esmo
como quem perdeu
para sempre
o caminho de volta.

(publicado na revista Perigo Iminente)

publicado por menina gauche às 5:52 PM
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18.6.09

Lançamento da revista Perigo Iminente

A revista e a edição fac similar da 1a. edição do texto da conferência futurista de 1909 de Manoel Dantas serão lançadas segunda-feira, dia 22, às 19h, na livraria Siciliano do Midway Mall.


Diacho. Lembrei que tenho prova. Se sair cedo, vôo pra lá.

publicado por menina gauche às 1:55 PM
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13.3.09

UM POEMA DE ANA CRISTINA CÉSAR

Flores do Mais

devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

publicado por menina gauche às 1:24 PM
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29.11.08

Escreve cartas
de memórias inventadas
para não enlouquecer

Pobrezinha

É apenas uma menina antiga
vendo passar sua vida
feita de quadros
de um filme noir

publicado por menina gauche às 9:36 AM
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3.11.08

Rasgos Pessoanos
já não me dominam:

com doses cavalares de Kafka
silencio a drama queen
que há em mim.


publicado por menina gauche às 4:46 PM
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16.10.08

Carta

Amor
escrevo
para agradecer o favor.

Hoje
sou a mulher que querias
a pândega que brinca
sem vergonha
entre os homens dos bares
e os homens dos mares.

Não quero mais babados
nem fados.
Prefiro quebrar os saltos
ao som do rock mais pesado.

Mas
ainda guardo (por pouco tempo)
teu riso idiota
teu dedo em riste.
Aquela noite
fiz teu retrato a nanquim para rasgá-lo
mas preferi retocá-lo
com deboche.
Mando-o amanhã
pelo correio. Anexa
vai a foto da minha nuca
marcada por dentes mais fortes e belos
que os teus.

Não me procures:
partirei no próximo navio.

publicado por menina gauche às 12:36 PM
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7.10.08

Não é por ser vingativa
que guardo na bolsa
cacos de paixão:
quem
além de mim
eles podem ferir?

Ouço Amy cantar que
o amor é um jogo perdido
enquanto contemplo
pedaços do meu rosto
nos estilhaços
espalhados no chão
e me convenço:

não quero a loucura que me mantém viva.
A outra é mais sábia.

publicado por menina gauche às 3:15 PM
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5.10.08

Contigo
o amor
sacraliza-se:
humor.

publicado por menina gauche às 3:48 PM
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4.10.08

Fujo dos espelhos:
afoguei Narciso.

A morte foi lenta e
sofrida.
Ainda sinto
sal nas narinas
maresia nos olhos.

Mas
agora
ente de palavras que sou
rio ante meu reflexo
no papel.

publicado por menina gauche às 10:37 AM
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28.9.08

Take de segunda-feira

É cinza
apesar do sol.
Pássaros bocejam
gatos alongam o espinhaço
veículos rasgam o vento
escarpins ferem o asfalto.
Na praça
colegiais virgens
suspendem as saias e
mostram os joelhos:
os meninos querem mais.

publicado por menina gauche às 11:24 AM
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16.9.08

Angelus

Enquanto os sinos dobram
anjos
vocalizam claves de lua.

publicado por menina gauche às 3:33 PM
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8.9.08

Um poema
é o coração
a pulsar fora do corpo.

publicado por menina gauche às 1:14 PM
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5.9.08

Construo-me
com tinta
no pano frágil da folha.

Desfaço-me
entre dosséis
de poemas alheios.


publicado por menina gauche às 1:02 PM
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Por não ser forte
cerquei-me de palavras.

Sucumbi à primeira seta.

Por ser fraca
permaneço à espera
do que possa me proteger da dureza destas noites.


publicado por menina gauche às 12:34 PM
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1.9.08

Quero a leveza
das mãos invisíveis
que suspendem os pássaros.


publicado por menina gauche às 3:29 PM
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28.8.08

Daquela janela
voam acordes
em mi bemol.

Não acreditam
mas vi um anjo
invadir a casa:

é ele
que fende as cordas
do instrumento.

publicado por menina gauche às 12:15 PM
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27.8.08

Tantos fiz.

Achei que você gostaria de um pouco de amor
sussurrado em versos.

Delírio,
eu sabia.

Joguei os cadernos ao vento,
perdi a cabeça e as memórias.

Mas ainda procuro suas pegadas:
quero de volta
a minha lira
que você roubou.

publicado por menina gauche às 12:57 PM
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25.8.08

Imaginários

Os meus amigos
eu guardo
no lado esquerdo da estante.

publicado por menina gauche às 3:44 PM
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5.8.08

Insônia

Dois dedos de prosa
um de café
nenhum de poesia.


publicado por menina gauche às 3:17 PM
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29.7.08

Ainda trago nas costas
as cicatrizes
das asas que me foram postas.

Não há invenção mais cruel que os altares.

publicado por menina gauche às 2:45 PM
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10.7.08

Sonhei um poema.

Ele parecia uma nuvem
esgarçada entre as candeias dos anjos
oprimidas pelos músculos da noite
retesados do esforço para lançar sobre o mundo seu tapete escuro.

Tentei tocar o poema.

A nuvem inchou e derramou palavras
que escaparam feito água entre os dedos.

Acordei muda.

(modificado no dia 29.07.08)

publicado por menina gauche às 2:12 PM
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O poema insalubre
sepultado no cesto
mistura-se ao lixo
alimenta os vermes
e torna-se pó.

Tão humano
aquele poema...

publicado por menina gauche às 2:06 PM
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5.7.08

Texto publicado por Carlos de Souza na edição da Tribuna do Norte do dia 02/07.

Sobre os livros da Flor do Sal

Tem certas coisas na minha profissão que dão o máximo de prazer e quase ou nenhum retorno material. É o caso de comentar livros de pessoas que conhecemos e gostamos. Pois é com imenso prazer que folheio este livro “Menina Gauche”, de Ada Lima, Editora Flor do Sal, sem número de páginas definido, R$10,00. Ada Lima foi minha aluna de jornalismo na UFRN, uma das pessoas mais brilhantes que conheci. Quando soube que ela ia lançar um livro de poesia não fiquei nem um pouco surpreso. Primeiro por ela ser filha de quem é (Adriano de Sousa dispensa comentários), depois pelo modo como ela encara os desafios que a vida lhe impõe. Os poemas de Ada Lima são curtos, afiados, certeiros. Como ela mesmo diz na apresentação do livro: “Pois fazer e ler poesia é muito mais sentir, do que explicar ou entender”. A leitura do livro de Ada Lima dura uma viagem de ônibus para casa, no máximo. Mas depois de lido, duvido que você esqueça o que foi dito. Tem um verso que ela diz assim: “As palavras preferem os poetas tristonhos”. Não preciso comentar mais nada.

O outro livro é “O Pastoreio do Boi (XII poemas sobre uma parábola ZEN)”, de Márcio Simões, Flor do Sal, sem número de páginas definido, R$10,00. Quando eu cheguei no bistrô em que os livros desta coleção foram lançados, não reconheci de imediato aquele rapaz magro na mesa da frente. Fui lá cumprimentá-lo e ouvi a seguinte frase: “Li muitas coisas de sua biblioteca, principalmente aqueles livros beatniks”. Eu sorri de volta e disse, “que bom”, mas ainda sem saber o significado daquela frase. Só depois quando cheguei em casa e parei para pensar foi que caiu a ficha. Claro, aquele era Márcio, o sobrinho de Pipi, minha grande amiga seridoense e quando ele era bem mais jovem, costumava ir na minha casa e ficava fuçando os livros. Deve ter lido muito mais por aí, porque deu no que deu. O livro de Márcio Simões tem aquele leveza do arqueiro zen, todos os músculos retesados, nenhuma intenção de acertar o alvo e, no entanto, que precisão! Então vejamos: “O pri-meiro/vislumbre/o boi surge/e desaparece/Quando anoitece/ele ainda/brilha/A luz da lua/é a mesma/luz da lua/Agora aquele/que se banha/? parte nela”. Está certo, Márcio Simões buscou a síntese da idéia na palavra nua, econômica, despida de qualquer gordura que venha a ter o boi. Mas é também a palavra de alguém que viu o sertão bem de perto. Livrinho gostoso de ler, rápido, conciso, atemporal.

Agora, o terceiro livro da série, O Poema do Caminhão, de Sebastião Vicente, Flor do Sal, 125 páginas, R$20,00 é de outra cepa. Aqui estamos no campo da dramaturgia, uma outra forma de escritura que demanda uma técnica, uma sabedoria, um modo de dizer as coisas para o palco. Meu amigo Sebastião Vicente já ganhou que cansou prêmios de teatro: Valsa na Varanda, ficou em 3º lugar no Concurso Nacional Funarte/Ministério da Cultura e ganhou uma leitura dramática no Rio de Janeiro, no Teatro Glauce Rocha; depois A Exclusão ficou com o 3º lugar do ano seguinte e ganhou uma montagem em Natal com o título Barra Shopping; O Poema do Caminhão ficou com o 1º lugar na categoria infanto-juvenil pela região Centro-Oeste no mesmo concurso anteriormente citado. Só isso já dispensaria qualquer comentário sobre a obra de Sebastião Vicente, mas tem muito mais a ser considerado.

A obra de Sebastião Vicente tem um caráter indissociável de sua personalidade: a simplicidade, humildade, timidez, inventividade, lucidez e inteligência. Quando Sebastião Vicente fala com você ou escreve um texto é com a mesma integridade com que toca seu trabalho jornalístico desde os velhos tempos da TV Cabugi e Tribuna do Norte. Como homem do sertão seridoense, sua terra e sua gente transparecem intactos em seus enredos. Mesmo assim, é impossível não perceber seu olhar penetrante no tempo presente e no futuro. A peça sobre o shopping é completamente moderna, urbana e no entanto guarda pontos de contato com a anterior, que se passa em um lu-gar que poderia ser Parelhas ou Acari, só para citar dois lugares que ele ama.

Este Poema do Caminhão mostra um autor mais apegado às raízes sertanejas, tanto que ele prefere os versos rimados no estilo do cordel. É inevitável a comparação com as peças de Ariano Suassuna, pois a tradição é mesma, a tradição oral, o universo das feiras livres do Nordeste, a fala cantada do povo. Queria que esta peça pudesse ser montada por um grupo itinerante que levasse essas palavras para as ruas de nossas cidades e trouxesse um pouco de luz a essas mentes tão embotadas pela linguagem da televisão, pela barbárie do mundo moderno. Queria que isso fosse possível.Mas vou ficar por aqui sonhando e relendo esses livros que alegram os meus dias.

publicado por menina gauche às 10:49 AM
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2.7.08

Minhas mãos têm o cheiro
do sangue
dos poemas mortos.


publicado por menina gauche às 12:47 PM
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